Conferência de Barcelona 2018

#euqueroserumaavó

Ora, lá vai “Bétinha” de armas e bagagem à conquista das espanholas!
Chove que mete medo, está frio para cacete, e a vontade de ficar é maior e superior
a tudo o resto. Mas eu sou “tuga”. E um português não recua perante nada!
Teimosos e orgulhosos, nós não dormimos. Nós vamos atrás.
E assim foi, até porque a percentagem portuguesa, residente em Portugal, ou de origem portuguesa, nesta conferência, era claramente superior às das restantes nacionalidades. Sim, até das espanholas.
Aterrei numa Barcelona gelada, mas confiante. A chuva dos últimos dias tinha parado
e agora o ar sereno e limpo começava a invadir Barcelona. O hotel da conferência ficava perto da Torre Graciá (misto de supositório colorido vs Pão de Açúcar sem bondinho) e era quase como estar dentro dos catálogos das lojas Área. Casual chic; masculino e confortável.
Esperava-me uma sala de conferência intimista e acolhedora.
“Somos só nós?! Perfeito!!!”
Beijinhos e cumprimentos à parte, quando vi, o Dr. Carlos González já estava sentado na mesa; magro, grisalho, um avô moderno, de falar doce e eloquência digna. Nunca o tinha ouvido falar e como não sigo nenhuma linha especial ou específica de ensino aos meus filhos, posso dizer que a palestra dele me fez desejar ler todos os seus trabalhos (que não são propriamente poucos: https://www.crianzanatural.com/buscar.asp?docus=si&texto=Carlos+Gonz%E1lez)!!!
Falou-se nas ovelhas, no lobo, no macaquinho e nos bebés: os bebés querem-nos… porque nos amam! Falou-se no “attachment” e no “bonding” nas diferenças entre as formulações existentes, nas diferenças entre significados e as diferenças entre correntes. O “attachment parenting vs a attachment theory vs a attachment based theory”.
Fiquei com a ideia que este é um homem sábio, daqueles que devemos venerar, mas também senti que por cá se usam muito as palavras dele para forçar pensamentos, quando na verdade o discurso dele é totalmente contrário a muitas das afirmações que já ouvi, feitas em nome do trabalho dele.
Para refletir: os bebés só desenvolvem o “apego” (bonding) entre os 6 e os 12 meses e por isso é também essa a fase da ansiedade da separação. Interessante não é?!
Conhecer a Veerle de Winter foi um dos melhores presentes que esta conferência me deu. Uma mulher fantástica, mãe de gémeos, com uma inteligência brilhante. A sua apresentação foi sobre PESQUISA em Babywearing: Carrying research, you can do it too! 
Caramba!! e não é isto que eu quero para o panomeu!??! Claro que sim!!! Ela explicou a forma como se investiga, como se estuda, como se apuram dados. O Babywearing é uma disciplina, só precisa dos investigadores!!
Fica a dica senhoras consultoras!!!
Vamos investigar mais, vamos dedicar-nos mais, vamos fazer pesquisa com base na nossa própria comunidade. O que usamos, como usamos, quando usamos? De norte a sul, interior e litoral. Particularidades e generalizações. QUEM SOMOS NÓS!??!
Alguma heroína se quer dedicar a isto!??!
A Débora Rodrigues era talvez, a “personagem” que mais desejava conhecer; pela suas origens, pela sua dedicação, pelo seu esforço em levar este projeto que é o Post Partum Carrying Group para a frente. E porque vá… cá dentro eu achava-a um bocadinho louca…
A Débora nasceu em Angola, filha de pais portugueses que emigraram depois para o Canadá. Fala lindamente português, assim como fala francês e inglês! É um melting-pot fabuloso pelos conhecimentos e pela inspiração.
Obrigou-nos a pesquisar, durante a sua apresentação sobre uma observação para lá do “M”, ou seja, para lá da posição e do carregador ou porte. Basicamente, a Débora mencionou uma coisa que sinceramente já me moía as ideias: andamos a perder demasiado tempo com a anca! Sempre a anca, e o bascular da anca, sempre este carregador que é mais perfeito que o outro e esquecemo-nos do resto… nós (consultoras) não estamos nisto para vender um produto específico. Estamos nisto para ajudar a encontrar uma solução. Nós estamos nisto por uma questão de saude pública.
E foi isso que ela fez: obrigou-nos a pegar no telemóvel, ir ao Google e a investigar se havia dados sobre mortalidade e sobre acidentes em Babywearing nos nossos países. Fez-nos verificar no portal dos nosso países sobre que problemas infantis se refletiam neste momento os governos… e sabem o que achei triste??? … pesquisem por vocês mesmos! Vão encontrar um plano vazio, pouco abrangente.
Afinal, quem pensa nas nossas crianças em Portugal??
Podemos ir à Organização Mundial de Saúde, mas isso não somos nós.
Nós somos particulares, quem pensa nas nossas crianças?!?! A obesidade infantil (e claramente é preocupante) será realmente a única coisa que assusta o nosso país neste momento (atenção, isto não é político, isto é transversal às políticas de saúde e isso é uma coisa completamente diferente de partidarismo)?!
Ficam as dúvidas e as inquietações: quem pensa nos nossos filhos?!
Depois de uma manhã cheia, admito que a única coisa em que conseguia pensar era: ALMOÇO!!! Adoro comer nos outros países, conhecer as pessoas, a forma como nos atendem. Barcelona é uma cidade para turistas, tal como Lisboa, e sente-se isso no colo que nos dão, na atenção e respeito com que nos atendem. COMI MESMO BEM, e já sabem que gosto de fazer #foodporn no Instagram!!!!
A tarde ia ser longa e a primeira interveniente foi a brutíssima Gillian O’Neill com o porte Tradicional Irlandês. Adorei!!! Parecia que estava a ver como se fazia em Portugal aqui há uns anos!!!
A técnica é quase a mesma, mas estas senhoras usavam o cinto para prenderem o pano à cintura e por cá usávamos o xaile triangular. Mas este pano tem as mesmas dimensões de um rebozo, as mesmas dimensões da diagonal do nosso xaile, e sempre assim se carregou!!! Quase sempre à anca e com apoio de uma mão. A Gillian mostrou-nos a pesquisa extraordinária q foi feita na Irlanda, com um acervo fotográfico espetacular.
E por cá, quem quer falar sobre a nossa história, o passado, como carregávamos, quem sente a vontade de se enfiar na Torre do Tombo a lamber jornais para encontrar provas fotográficas da nossa história?!?! Eu tenho muita vontade, mas não tenho tempo! Deixem os copy-paste, e procurem fotos novas, história nova!!! É disso que precisamos!!! Revermo-nos no passado para crescermos para o futuro!!!
\Entre apresentações, consegui falar um pouco com a Mel Cyrille sobre a paixão dela: o carregar ativo. Pfff…. Sério, pensem lá comigo, como é que os irmãos mais velhos, pequenitos, conseguem carregar irmãozinhos pouco mais novos que eles próprios? A Mel estuda este campo e podem ler tudo no seu livro “In-arms Carrying: A practical guide for comfortable carrying”. Ela estava presente especialmente pela intervenção do dia seguinte com a Dra. Evelin Kirklionis.
Fizemos alguma prática e encerramos as “orações” do dia.
Seguia-se uma reunião-à-porta-fechada onde se debateram assuntos particulares.

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Estava EXAUSTA!!! Pensar que se vai para uma conferência para se passear e divertir é um erro. Ou vamos porque queremos muito aprender, ou o intuito é outro e perde-se a matriz da participação. A única coisa que eu queria no fim deste dia era descansar uma hora e ir jantar.
Jantar esse que foi fenomenal, com tapas e piadas, servidas por um “rapazinho”, no mínimo, muito hermoso! Uma mesa pluri-cultural só pode dar resultados engraçados, e admito que foi uma noite muito, muito divertida!!!!
Coisas sérias: se tinha saudades dos meus filhos?!
Epá… eu não sou uma pedra, mas eles estavam bem.
Estavam em casa, e eu estava “de férias”!
Por isso, posso dizer, sem culpas, que não tive saudades da hora de jantar, da hora do banho, da hora de deitar, nem da hora seguinte de xixis imaginários… senti saudades deles, do cheiro deles, da confusão deles. Mas nós precisamos de aprender a separarmo-nos um bocadinho… porque eles crescem… porque nós também crescemos… e eles não são nossos! Eles são do mundo!!!
E não, não telefonei para casa nesse dia! E o meu marido respeitou isso!
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Dormi, acordei, e andei com a minha companheira de luta (Tais Nemchenko) para o hotel. Novo dia, novas curiosidades, e se já tinha ficado tão curiosa com as pesquisas da Dra Evelin Kirklionis no dia antes quando falei com a Mel, admito que estava mesmo muito curiosa para a ouvir.
Pesquisa, senhoras, esta senhora fez PESQUISA à séria!!!!
Sabiam que carregar um bebé sempre esteve associado à pobreza!? Por isso sempre existiram as amas de leite e as mil e umas damas de companhia dos príncipes e infantes… Curiosamente, o nosso desejo de enfiar as crianças nos carrinhos, vem de uma moda popularizada por uma rainha que odiava de tal forma os filhos que os queria o mais afastados dela possível… A Rainha Vitória de Inglaterra ( agradeçam-lhe a ela, tá?!).
Falou-se no carregar na posição deitada, e em números:
– entre 1980-2000 30% dos pais carregavam as crianças deitadas no pano.
– entre 2000-2005 28%
– entre 2005-2014 10%
– antes de 1990 70% carregavam os bebes nas primeiras 4 semanas
– de 1990-2000 85%
– depois de 2000 27,4 carregavam nos primeiros dias depois do nascimento.
Os pais carregavam mais os bebés se fosse numa posição deitada, logo após o nascimento, mas nas primeiras 6 semanas, naturalmente mais de metade passava à posição ao alto e com 2 meses 80% já o fazia.
Porquê?!
Porque as crianças preferem e os pais sentem menos desconforto!!! Ei!!! Não fui eu que disse, foi a Dra Kirklionis!!!
Assim, o conselho dela é que se mostre a posição deitada (com todas as cautelas e cuidados CLARO), mas porque essa posição dá confiança aos pais para que possam evoluir para o “próximo nível”.
Não vou questionar. Convido-vos a estudar o trabalho dela.
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Admito que esta foi uma sessão complexa, cheia de números e por isso assistir à apresentação da Adebisi Osundeko, dona da marca Joy & Joe foi uma lufada de ar fresco!! A Adebisi não pôde estar presente, e a Débora fez-nos a apresentação e prática por ela!
Carregar na tradição do povo Yoruba. A Adebisi é da Nigéria, e mesmo em África há varias formas de carregar. Mas carregar à frente não existe. As mães passam as crianças para as costas, mas estão SEMPRE presentes. Sempre com elas.
Eu adorei a prática! Já tinha experimentado usar uma samacaca tradicional e o porte no torso é pratico e versátil. Gostei imenso!!!! Além de que os tecidos… são LINDOS!!!
Ah! Os panos usados pelo povo Yoruba têm 1,2x2m mais ou menos de tecido. É enrolado à nossa volta e pode ter dois tipos de acabamento à frente, nó e enrolado, ou só enrolado. Pode usar-se um segundo pano, por questões estéticas sobre o primeiro, para reforçar o porte.
Mas o que retive, de mais importante nesta sessão foi que a consultora de Babywearing está “aqui” para substituir a avó. Para ensinar os conhecimentos esquecidos. Para fazer parte da aldeia! Caramba… e isto aquece-me o coração!!!!
Pausa para almoço! Acho que já estava tudo tão moído nesta altura que eu só pensava… pode ser que se esqueçam de mim…
Mas não!!! Não esqueceram! E aqui a palhacita mau feitio deu o seu melhor numa apresentação sobre a Comunicação, Conexão e Comunidade, que é como quem diz: vamos todos ali conviver para parecermos muitos!
Vou deixar o meu texto para uma próxima apresentação.
Mas foi giro.
Eu diria que dei na boa, 15 a zero ao Dr Gonzalez… mas isso sou eu!!!
#arrogante
Segui-se aquela que, desde aquele dia, é a minha heroína: #vikingmom MariLaura Sjalig. Pessoas, estamos a falar de alguém com 20 anos de experiência nisto!!!!! 20 anos!!!!
Na Noruega eles precisam de carregar as crianças. Porquê?!?! Porque ha neve!! E se as crianças forem num carrinho… ficam enterradas!!!
A apresentação dela chamava-se “Buckle up and Carry on”.
Ela é assim uma deusa das mochilas. E tipo, foi brutal ver que a coisa sobre a qual ela mais falou foi sobre o tamanho do torso do utilizador e muito pouco sobre o tamanho da criança!!!
Eu não aprecio mochilas, e tenho algumas reticências em utilizar mochilas evolutivas.. porque o tecido continua lá… por mais que encolham… o tecido continua lá: e isso é perigoso. Mas aprendi a usar a meia altura do painel para criar uma bolsa e colocar um recém nascido. Digo-vos: BRUTAL!!!!
Acho que por aqui condicionamos tudo em demasia… sejamos humildes e aprendamos com estas senhoras cheias de experiência!!
Divertido foi ver a rainha das mochilas em Portugal e a rainha das mochilas em Espanha, em palco com a MariLaura, ahahahha!
#karmaisabitch
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Quase, quase, quase a acabar a nossa última oradora foi a querida Rosa Sorribas.
A Rosa é sobejamente conhecida cá no burgo, não só por ter formado muitas das nossas consultoras/peer, dona da Crianza Natural, como por ser uma pessoa com conhecimentos no campo da amamentação, assim BRUTAIS.
Eu não sou muito versada em amamentação, mas ouvi-la é um embalo delicioso!!! Posso não concordar com algumas das afirmações dela, mas admiro a sua postura e a sua forma calma de apresentar as coisas. Uma vénia aos imensos conhecimentos desta senhora no campo da amamentação.
A reter: a amamentação não devia ser em livre demanda, mas sim em livre oferta!
Achei isto extraordinário. Porque existe uma diferença entre estarmos sempre a pedir algo ao empregado e entre o empregado nos dar sempre aquilo que queremos antes de nós pedirmos!!! Extraordinário, não é?!?!

 

Conseguiram ler tudo!??!?! Aguentaram até ao final!??! Então os meus parabéns!!!!

Para finalizar (não vale a pena falar da noite de shots e cerveja que se seguiu), estas mulheres têm um propósito. Estas mulheres vivem isto. Esta experiência só me fez ter ainda mais a certeza de quão pequeninos somos ainda nisto.
Quanta luta para haver consensos quando na verdade só deveríamos lutar pela diferenciação.
Ajudem as pessoas a perceber que não há porta-bebes certos ou errado
s, mas sim, que tudo depende deles, dos seus corpos, das suas relações, das suas vidas. Deixem os Ms e os marsúpios em paz, deixem os slings de argolas perder para o pano elástico de vez em quando, não sejam tão limitados: Babywearing é colo.
COLO que se dá com dois braços. Estudem. Investiguem. E pode ser que daqui a mais 10 anos tenhamos também entre nós pessoas especializadas, extraordinárias, cultas, cheias de conhecimento: as novas avós da tribo.
Elisabete Muga

 

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